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"Há pessoas lindas e um sentido musical arrebatador. Um não viveria sem o outro", palestra com Pedro Melo Alves.

15/05/2017

As vezes é difícil chegar á pessoa que todos mantemos mais ou menos escondida sob o personagem, nomeadamente quando a conversa é feita enviando perguntas pelo Felcebú. Mas neste caso, o resultado é tão brilhante e tão giro, posso apenas editar quatro vírgulas e adicionar algum erro ortográfico.

 

 

O baterista e compositor portuense Pedro Melo Alves vem de apresentar na Festa do Jazz do São Luiz, em Lisboa, o seu primeiro disco como líder e compositor, Omniae Ensemble, formado por ele José Soares, Gileno Santana, Xavi Sousa, Zé Diogo Martins, Mané Fernandes e Filipe Louro. Este projecto alcançou o prémio de Composição Bernardo Sassetti, em sua segunda edição, de um júri formado por Carlos Azevedo, Mário Laginha, e Carlos Martins.

 

Graças ao processo de investigação, para criar esta entrevista, descobri a personalidade musical do compositor e pianista infelizmente falecido Bernardo Sassetti. Quê relação guardas com seu mundo criativo?

 

Antes gostava de te agradecer esta entrevista e a energia que dedicas à vitalização da arte como o fazes. Viva Paco.

 

São tantas as vezes em que dou por mim vazio, sem saber o que estou a fazer nem porquê que estas demonstrações de substância não podiam passar menos indiferentes.  Não acredito num sentido nem valor inato das coisas, pelo menos não definitivamente à escala humana. Pelo que todas estas forças que se erguem contra a passividade e dão por si a reinventar a realidade a título de uma loucura pessoal só e descomprometida são quem mais me alimenta a vontade de continuar à procura. Convenhamos, a vida é uma aberração se a quisermos olhar nos olhos: são demasiadas as profundas contrariedades, demasiadas as amarras, demasiada a solidão, demasiadas a necessidade de nos defendermos, de nos dessensibilizarmos...

 

E é aqui que chego a Bernardo. (Ainda continua a soar-me irreal falar dele como falecido.) O Bernardo continua a ser quem melhor me mostra como a vida pode ser simultaneamente tão simples e insustentável. A história das suas melodias conseguem-me sempre desarmar da máscara leve da vida e perguntar-me o que cá ando a fazer. Nunca vou perceber bem de que caminho se fez aquela relação com o tempo, o espaço e a sensibilidade. Mas foi definitivamente alguém que não teve medo de olhar a vida nos olhos. E isso tanto me inspira como assusta.

 

Poderias nos falar sobre a origem e nascimento das canções do teu primeiro disco como líder, dende a folha pautada em branco até merecer este prémio de composição, de um júri formado por Mário Laginha, Carlos Azevedo e Carlos Martins?

 

Estas composições acabam por ser tanto o desfecho de uma longa história de paixões, inspirações e visões acumuladas como o início de outra, mais aberta ao desconhecido.

 

Comecei a compor este material graças ao pretexto do concurso – todo o criador agradece deadlines, para logo a seguir as deprezar visceralmente. Apesar de ter resultado em mais de meia hora de música escrita, à excepção da melodia do Phelia, foi tudo composto no final de Outubro e durante o mês de Novembro de 2016, entre noites sem dormir e muita incerteza e promessas de abandono de vez da música (como só tu sabes, Ron). Acabou por significar um marco importante na minha relação comigo, da minha consciência de limites, e das possibilidades que se geram nesse limite.

 

Na génese deste material estão contidas muitas visões musicais e referências vindas, tanto do jazz como da música dita erudita, que sempre senti que deveriam povoar mais a música improvisada. Mas também está o nome do Sassetti que, já desde a 1ª edição do concurso, me fez hesitar perante a ideia de associar as minhas explorações musicais imberbes, a um legado desta dimensão. Acabou por ser importante para me conectar com os valores essenciais da escrita, da procura de uma frescura criativa com uma essência minha, sem estes estarem subordinados por defeito, aos cânones instalados de “como as coisas devem ser” ou dos estereótipos de “perfeição”.

 

Daí até à noite fatídica em que submeti o material, às 23h57 do data limite de entrega com uma fraca conexão de wifi, e até ao dia em que recebo um telefonema do Carlos Martins a anunciar-me a decisão do júri, devo confessar que sinto uma leveza inexplicável, quase como se, uma vez liberto de mim, o material para a pauta deixasse de me pertencer. A única diferença, talvez, é ter presente quais os motes que inspiraram cada gesto. Mas, se há coisa que se vai aprendendo quando se cria, é que o material ganha vida própria e dita os seus próprios caminhos -qual analogia da vida.

 

E isso leva-me ao segundo ponto com que comecei – a abertura ao desconhecido. Se estes foram os motes que me levaram a escrever este material, agora sinto que tenho na mão uma oportunidade para abordar novos conceitos de som, escrita e interacção que este caminho despertou, que muito me entusiasmam e que apontam para rumos incertos, com as possibilidades todas em aberto.

 

 

Essas músicas próprias, e alguns arranjos de originais do Sassetti, interpretadas pelo septeto Omniae Ensemble formado por ti, José Soares, Gileno Santana, Xavi Sousa, Zé Diogo Martins, Mané Fernandes e Filipe Louro, som segundo a Jazz.pt “um jazz que se interroga, que problematiza, que recusa ser normativo, que explora, aberto a contribuições tanto da música erudita quanto da popular”. Quê ha no Pedro Melo Alves’ OE?

 

Há pessoas lindas e um sentido musical arrebatador. E um não viveria sem o outro.

 

Foi a primeira vez que a minha breve carreira me colocou neste lugar de criação de um projecto de raíz, norteado pelos meus critérios de exigência. E, muito mais habituado ao lugar de cedência, em que os contextos ditam grande parte dos contornos dos projectos, percebi aí que quando se abrem as portas da exigência e nos permitimos perguntar “o que quero, MESMO?” não temos uma tarefa fácil em mãos – neste caso, encontrar um grupo de músicos tão sérios na música como na vida, cheios, abertos ao trabalho profundo e honesto que põe tudo em causa, curiosos e cujas explorações cruzassem livremente estilos e atitudes.

 

Começa-se a tornar uma constante na minha vida ter projectos musicais especiais apenas com bons amigos. Não apenas amigos nem apenas porque são amigos, nem eu conseguiria contribuir para mais uma abordagem lobbyista “dos amigos” neste meio, mas porque acontece serem as pessoas mais talentosas, em cuja filosofia de trabalho e visão musical eu acredito, que eu conheço. E isso inclui novos amigos que esta música me trouxe, como o Zé Diogo, o Gileno ou Xavi, com quem ainda não tinha colaborado antes e que não param de me surpreender. E inclui toda a infraestrutura humana que desde o início trouxe um apoio inestimável a esta música, da Inês Garrido, Sandra Cardoso, Carlos Martins, Alaíde Costa, Constanze Juergens, João Bessa e Daniel Faustino.

 

Não sei garantir se será algo que consiga manter ao longo de toda a minha carreira, mas certamente começa a ditar uma forma de trabalhar, carregada de valores que depois transbordam na música, como contam esses belos adjectivos que me trouxeste.

Portanto, embora seja um grupo despoletado pelo prémio e pelas composições, transformou-se num projecto com vida própria e que transcende em muito as notas do papel. As interrogações e explorações que se ouvem no disco e nos nossos concertos não são, de todo, minhas mas sim nossas. E não podiam saber melhor.

 

Como os antigos eu me pergunto o que veio primeiro, o piano ou a bateria?

 

Na minha vida? Veio muito primeiro a bateria, logo aos 8 ou 9 anos, quando os meus pais reconheceram um talento em mim para percutir os móveis da casa. E durante uns tempos foi uma vida feliz, a percorrer os clássicos do rock com o meu irmão na guitarra.

 

Claro que aos poucos me aguardava uma longa história de amor atribulado, porque quanto mais fui tendo projectos e estudando música mais se foi tornando claro o quanto as cores harmónicas e as possibilidades texturais me ocupavam as vísceras, independentemente das histórias que a música contasse. E o magnetismo para o piano foi o passo seguinte, inevitável. E daí, a vontade de ter o piano e o acesso a essas cores como instrumento central também, inevitável.

 

Por um par de anos acreditei no eu pianista.

 

Mas, entretanto, a bateria e os projectos como baterista não perderam o seu lugar e fui descobrindo um equilíbrio nesta gestão de vontades, feito das frustrações do que gostava de ser e dos prazeres que essas impossibilidades acabam por trazer.

 

 

Continuando com as questões existenciais. Que preferes, futebol ou entrevistas na televisão?

 

Ahah, tenho de assumir o alien em mim para responder a isto. A conversa de café tem-se tornado progressivamente mais complicada na minha vida, sobretudo desde que deixei de ter televisão em casa. É grave: nem acompanho futebol nem televisão nem tão pouco sei reconhecer o modelo mais básico de carros... Desses pilares básicos da convivência vou acompanhando o mínimo dos desenvolvimentos da política nacional - ainda é o que me salva o café.

 

Voltando novamente ao profundo. Além do Jazz, tes explorado outros estilos musicais?

 

Sim, sem dúvida. Diria até que o jazz surge a meio da minha caminhada musical, não sendo necessariamente a estrutura base do meu imaginário. Cada vez mais a minha busca não se prende a estilos nem está sequer focada apenas na música. O contacto com a arte moderna nas suas formas mais estimulantes, tem dirigido a minha busca para uma abordagem mais holística, para a qual se fundem tanto as vozes micropolifónicas de Ligeti como as telas vitais da Tracie Cheng, o interplay simbiótico do trio do Leo Genovese, a essencialização conceptual do Projecto Teatral, a estranheza simbólica do cinema de Yorgos Lanthimos ou os gestos hipnóticos de Dimitris Papaioannou.

 

E mesmo dentro da música têm sido momentos igualmente epifânicas, tanto descobertas de projectos frescos da música “ligeira” como os Knower como de compositores da música erudita do s.XX como o Giacinto Scelsi.

 

Enquanto músico hei-de querer estar sempre envolvido em projectos com naturezas estilísticas e conceptuais distintas, como acontece actualmente entre a minha banda rock Catacombe, os projectos de jazz mais experimental The Rite of Trio e Omniae Ensemble e o projecto de dança em que estou envolvido com a Carlota Lagido.

 

Finalmente, não vou dizer obrigado sem pedir notícias sobre The Rite of Trio.

 

The Rite of Trio está a recolher as energias para gerar a sua nova criação. Depois do ano passado de apresentação do nosso álbum de estreia e de uma residência de composição no verão temos estado a conceber o novo rumo e a gerir as logísticas à volta desse rumo. Todos os membros têm estado ocupados com outros projectos mas sem nunca perder de vista esta incubadora, que tem um rol de planos ambiciosos em vista.

 

Sinto que se aproxima agora uma época vital de criação e que novidades estarão à porta, quer para o novo álbum quer para colaborações especiais a anunciar em breve.

 

Só posso dizer o que tenho dito: o melhor ainda está para vir.

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